Teólogo revela como os papas Ratzinger e
Wojtyla reintroduziram a Inquisição, perseguiram divergentes e tornaram
quase impossível a renovação da Igreja.
Entrevista a Amy Goodman e Juan Gonzalez, no DemocracyNow
Desde
que o Papa Bento XVI formalmente se retirou, na quinta-feira, as
especulações passaram a ser sobre quem vai substitui-lo. Na quarta,
Bento deu um adeus emotivo em sua última audiência geral, dizendo que
compreendia a gravidade de sua decisão de tornar-se o primeiro pontífice
a renunciar, em um período de cerca de 600 anos. Com 85 anos de idade,
apontou sua saúde frágil como razão para a partida. Dirigindo-se a cerca
de 150 mil fiéis na Praça de São Pedro, disse que está renunciando pelo
bem da Igreja.
O
mandato do papa Bento foi marcado por muitos escândalos, talvez mais
notadamente por sua postura diante dos abusos sexuais. Há alegações de
que ignorou ao menos um caso assim, quando era cardeal. Documentos
mostram que, em 1985, o estão cardeal Ratzinger adiou esforços para
afastar um padre condenado por abusar de crianças.
Enquanto
isso, Bento supervisionou, no ano passado, uma sentença do Vaticano
segundo a qual o maior e mais influente grupo de freiras católicas
norte-americanas sofria “sérios problemas doutrinários”, por ter
questionado os ensinamentos da Igreja sobre pontos como homossexualidade
e a proibição das mulheres exercerem o sacerdócio. Mais recentemente,
novas fontes italianas revelam que três cardeais foram investigados por
terem vazado documentos que mostram a corrupção sem limites nos postos
do Vaticano.
Para
saber mais, fomos a San Francisco, onde entrevistamos o teólogo Matthew
Fox. Ele é autor de mais de vinte livros, o mais recente dos quais é The Pope’s War: Why Ratzinger’s Secret Crusade Has Imperiled the Church and How It Can Be Saved (tradução
livre: A guerra do Papa: Por que a cruzada secreta de Ratzinger ameaçou
a Igreja e como ela pode ser salva). Fox é um ex-padre católico, que
foi primeiro impedido de ensinar a Teologia da Libertação e
Espiritualidade da Criação pelo então cardeal Ratzinger. Mais tarde, foi
expulso pela Ordem Dominicana, à qual pertenceu por 34 anos. Hoje é
padre na Igreja Episcopal. Eis sua entrevista:
Amy Goodman: Bem vindo ao Democracy Now! Você pode começar respondendo sobre a renúncia do Papa e seu significado?
Matthew Fox: Obrigado. Eu realmente aprecio o jornalismo de vocês. Ele significa muito, para muitos de nós.
Penso
que eu vou acreditar na palavra do Papa, quando ele diz que está
cansado. Eu estaria cansado também, se tivesse deixado atrás de meu
mandato tanta devastação, como ele fez, primeiro como inquisidor-geral
durante o papado anterior. Bento trouxe de volta a Inquisição. É verdade
que fui um dos teólogos expulsos por ele, mas relaciono outros 104 em
meu livro, e a lista continua crescendo. É assim que a História vai
lembrar deste homem: como quem trouxe a Inquisição de volta, o que é o
completo oposto do espírito e dos ensinamentos do Segundo Conselho do
Vaticano. Portanto, acredito realmente que o papa está deixando seu
posto porque não o suporta mais.
O
Vaticano tornou-se um ninho de serpentes. Como teólogo, vejo o trabalho
do Espírito Santo em tudo isso. A Igreja Católica como a conhecemos, a
estrutura do Vaticano, está obsoleta. Estamos nos movendo para além
dela. O que está ocorrendo é doentio e me refiro, por exemplo, à
proteção dos padres pedófilos. Você pode ver este fenômeno em muitos
lugares: com o cardeal Mahony em Los Angeles; o cardeal escocês que
acaba de renunciar; o cardeal Law, que foi elevado após ter saído de
Boston, promovido para dirigir uma basílica do século 4, em Roma; e o
próprio papa, segundo informações recentes.
Estamos
tomando conhecimento das coisas horríveis que ocorreram em uma escola
para surdos em Milwaukee, onde mais de 200 garotos, garotos surdos,
foram abusados por um padre, e Ratzinger sabia disso. O padre Maciel,
que era tão próximo do último papa que o levou para passeios de avião,
abusou de 20 seminaristas; tinha duas esposas e abusou de quatro de seus
próprios filhos. Ratzinger soube sobre esse caso por dez anos. Os
documentos estavam em sua mesa, e ele não fez nada até 2005.
A
história e a bajulação dos papas, que chamo de papolatria, não vão
encobrir os fatos. Foram os 42 anos mais sórdidos do catolicismo, desde o
Borgias. Acho que é algo realmente relacionado ao fim dessa Igreja,
como a conhecemos. Acredito que o protestantismo também necessita de um
reinício. Acho que o cristianismo pode voltar mais atrás, e se aproximar
dos ensinamentos de Jesus, um revolucionário do amor e da justiça. É
disso que se trata. E é por isso que tem havido uma resistência tão
feroz, na ala direita.
A
própria CIA esteve envolvida, especialmente com o papa João Paulo II,
no esmagamento da Teologia da Libertação em toda a América do Sul,
substituindo líderes heroicos, inclusive bispos e cardeais, por
integrantes da Opus Dei, uma organização fascista. Tudo reduziu-se a uma
questão de obediência: não se trata de ideias ou teologia. Eles não
produziram um teólogo em 40 anos. Produziram advogados canônicos e
pessoas que se infiltram onde o poder está: na mídia, na Suprema Corte,
no FBI, na CIA e nas finanças, especialmente na Europa.
Juan González: Em
alguns de seus escritos, você sustenta que, no fundo, os dois últimos
papas – Bento XVI e João Paulo II – lideram um cisma e que, na
realidade, agiram para burlar as decisões do Concílio Vaticano 2º. Você
poderia detalhar este movimento histórico?
Matthew Fox: O
papa João XXIII convocou o concílio no começo dos anos 1960. O encontro
reuniu todos os bispos do mundo e todos os teólogos, muitos dos quais
haviam vivido sob fogo no papado anterior, de Pio XII. Foi certamente um
movimento de reforma. Inspirou os mais pobres, especialmente na América
do Sul. Depois deste concílio, o movimento da Teologia da Libertação e a
opção preferencial pelos pobres decolaram, criaram comunidades de base.
Eram um novo jeito de fazer a Igreja, onde todos tinham voz, não apenas
as pessoas no altar.
Esta
aproximação não-hierárquica ao cristianismo e ao culto, muito mais
horizontal e circular, foi uma grande ameaça a certas pessoas em Roma –
ameaçou ainda mais à CIA. Dois meses depois de elito, o presidente
Ronald Reagan convocou uma reunião de seu Conselho Nacional de Segurança
em Santa Fé, Novo México, para discutir um ponto específico: como
destruir a Teologia da Libertação na América Latina. Concluíram que não
poderiam destruir a Igreja, mas conseguiriam dividi-la. Foram ao papa.
Deram imensas somas de dinheiro ao sindicato Solidariedade, na Polônia,
ao qual ele estava ligado. E em troca, conseguiram permissão ou – se
você prefere assim – o compromisso do papado em destruir a Teologia da
Libertação.
Isso está muito documentado. Por exemplo, por Carl Bernstein, num artigo de capa da revista Time,
onde ele cria algo como uma hagiografia de Reagan e do papa juntos.
Bernstein foi muito ingênuo sobre o que realmente estava acontecendo na
própria Igreja. Parte importante do Concílio Vaticano 2º era declarar a
liberdade de consciência, considerá-la um direito de todos os cristãos.
Tudo isso foi destruído pelo papa João Paulo II e pelo cardeal
Ratzinger.
As
reformas do Concílio Vaticano 2º estavam se concretizando. Falo de um
cisma porque, na tradição católica, um Concílio é superior a um papa.
Mas nos últimos 42 anos, os dois últimos papados foram desfazendo todos
os valores que o Vaticano 2º sustentou. É isso que as freiras estão
sofrendo agora. Assim como o Vaticano atacou 105 teólogos, agora acusa
as freiras de, digamos, não participar da Inquisição. E Deus abençoe
essas freiras, as Nuns on the Bus. Muitos de nós as conhecemos porque
elas têm estado nas linhas de frente, sustentando os valores do Vaticano
2º, especialmente os de justiça e paz, e trabalhando com os
marginalizados.
Amy Goodman: Matthew Fox, por que você foi expulso da Igreja Católica? Você diz que é por causa da Teologia da Libertação. Explique.
Matthew Fox: Bem,
primeiro eu fui silenciado por 14 anos, por Ratzinger. Em seguida, tive
permissão para falar de novo e então, três anos depois, fui expulso.
Mas ele construiu uma lista de reclamações. Primeira: eu seria um
teólogo feminista. Não imaginava que este fato pudesse constituir uma
heresia…
Número
dois, eu chamava Deus de “Mãe”. Bem, provei que todos os místicos
medievais chamavam Deus assim; e que a Bíblia também o faz, apesar de
forma menos frequente.
Número três, eu prefiro a expressão “bênção original” a “pecado original”. Escrevi um livro chamado Original Blessing (Bênção
Original, em inglês), no qual provo que nem Jesus, nem judeu algum,
jamais ouviu falar de “pecado original”. Como você pode construir uma
igreja, em nome de Jesus, a partir de um conceito que é do século 4
d.C.?
Sabe
o que mais aconteceu no século 4, além da ideia do pecado original? Foi
a conversão do Império Romano ao catolicismo. Se você passa a comandar
um império, o pecado original é um ótimo dogma a difundir. Faz com que
todos fiquem confusos sobre por que estão aqui. Nessa condição, é muito
mais fácil colocá-los sob comando.
Acusaram-me
por não condenar homossexuais, o que é claro que não faço. Obviamente
Deus quer homossexuais, ou não haveria entre 8% e 10 % da população de
todo o planeta com essa graça especial.
Disseram
que trabalho muito perto dos índios norte-americanos. Bem, realmente
trabalho com eles. Aprendi muito com os professores índios e seus
rituais, tais como saunas, danças do sol, busca de visões. Não sei se
isso é heresia também – eu não sei o que significa “trabalhar perto
demais”.
Essas
eram algumas das objeções. E realmente, nenhuma delas se sustentava.
São testes de Rorschach sobre o que apavora o Vaticano. E acima de tudo,
é claro, sobre mulheres e sexo. Essa é a agenda. Em qualquer situação
onde há fundamentalismo e fascismo, existe controle. É por isso que o
Vaticano, o Talibã e o pastor Pat Robertson têm algo em comum: estão
todos apavorados com a possibilidade de trazer a divindade feminina de
volta, e com isso, é claro, os direitos iguais para as mulheres.
Juan González: Além
da pedofilia, que tem sacudido o Vaticano e toda a Igreja, há também os
escândalos de corrupção no próprio Vaticano. Fala-se da denúncia
produzida por um grupo de cardeais, que investigaram parte da corrupção
mas não vão divulgar nada até o próximo papa ser nomeado. Você sabe
quanto qualquer desses temas tem a ver com a renúncia de Bento XVI?
Matthew Fox: Tenho
certeza que tiveram. Eu fui informado de que ele recebeu a denúncia,
examinou-a e, seis horas depois, anunciou que estava renunciando. Pôs-se
a salvo e encarregou o próximo papa de lidar com o tema. Penso ser
muito claro que há uma conexão. Há muito mais nos bastidores do que a
imprensa já anunciou, posso assegurar.
Quando
Ratzinger fez-se papa, fui a Wittenberg e preguei as 95 Teses [de
Martinho Lutero] na porta. Um ano e meio atrás, estava em Roma, e as
traduzi para o latim – quer dizer, italiano, e entreguei-as para a
basílica do cardeal Law numa manhã de domingo. Foi muito interessante.
Um homem de 40 anos de idade veio a mim, um romano. Ele me disse, muito
simplesmente: “Eu costumava me dizer um católico. Agora, só me chamo de
cristão”. Foi um golpe para mim. Logo embaixo do nariz do papa,
italianos, também, estão começando a compreender a verdade, estamos em
um ótimo momento histórico. Uma instituição ocidental de 1.800 anos está
derretendo diante dos nossos olhos. É doloroso e feio. Por outro lado, é
também um momento de avanço e para apertar o botão de reiniciar no
cristianismo, retornando à mensagem realmente poderosa de Jesus e seus
seguidores através dos séculos: os místicos e os profetas.
Susan
Sontag define “fascismo” como violência institucionalizada. Os
católicos têm passado por violência institucionalizada há 42 anos.
Pergunte a qualquer um desses teólogos que foram afastados de seu
trabalho. Alguns morreram de ataque cardíaco. Outros, na pobreza das
ruas, porque não conseguiram arrumar emprego. Mas, é claro, fale com os
jovens que foram abusados por padres e acobertados por Ratzinger, que
“protegeu” a instituição às custas de cada uma dessas crianças.
Juan González: Vamos
às especulações sobre quem vai ser o sucessor do papa Bento XVI,
Fala-se muito sobre a possível escolha, pela primeira vez, de um papa do
hemisfério sul. Você ve alguma possibilidade de mudança real e
substantiva na política da Igreja, seja quem for seu sucessor?
Matthew
Fox: É triste dizer isso, mas eu não acredito, porque todos os que vão
votar foram nomeados com aprovação do Ratzinger. Pensam como ele. O
emburrecimento da igreja veio com toda essa crise pedófila. Quando você
não tem líderes inteligentes e com consciência por 42 anos, mas apenas
gente que diz sim, não é possível responder de modo inteligente à crise
que emerge quando se acha um pedófilo em seu meio. Há um arcebispo
norte-americano – não vou nomeá-lo – que, vinte anos atrás, chorou na
presença de um amigo meu e lhe disse: “Não há um único bispo nomeado nos
últimos vinte anos que eu consiga respeitar”. Bem, agora nós podemos
dizer 42 anos.
Por
isso, francamente, poucos nomes me vêm à cabeça. Existe este na África,
que por azar é um completo homofóbico, e está endossando todas as leis
recentes de violência homofóbica na África. É o chefe da Comissão de
Justiça e Paz no Vaticano. Seria de esperar que não chegasse tão longe.
Existe o cardeal austríaco, que é dominicano e mostrou um pouquinho de
independência uma ou duas vezes. Há esse O’Malley, de Boston, que é
franciscano, e portanto não quer ser papa.
Fonte: Blog Outras Palavras. Tradução: Gabriela Leite